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Coluna: Conheça a fantasia romântica de Blue Rose

Neste RPG, amor é amor, independente do gênero.

Imagem Divulgação

Eu sou um colecionador de jogos de RPG e tenho muitos jogos favoritos. Vocês não entendem a minha alegria quando vi que a Jambô trouxe para o Brasil Blue Rose, um jogo de fantasia romântica e LGBT-friendly.

Blue Rose retorna após um longo hiato de doze anos desde a sua primeira edição. Publicado pela Green Ronin Publishing (a mesma editora de grandes jogos como Dragon Age RPG, The Expanse e Mutantes e Malfeitores), o jogo utilizava o D20 System e era mecanicamente derivado da 3ª edição do Dungeons and Dragons.


Ele retorna em 2017 após uma campanha bem-sucedida no Kickstarter (plataforma americana de financiamento coletivo), empregando o AGE System, sistema de regras utilizado também nos jogos Dragon Age RPG e The Expanse)

Eu disse antes sobre o jogo ser de fantasia romântica, certo? Este é uma outra forma de enxergar a fantasia, diferente do que foi definido pelos livros do Robert E. Howard (criador do Conan) e Fritz Leiber (criador da série de livros que, juntos, formam Lankhmar).

Esse gênero, chamado de capa e espada, preza pelo heroísmo, pela luta constante do bem contra o mal e pelos combates sempre marcantes e épicos. Já a fantasia romântica destaca as lutas emocionais dos personagens, explorando o crescimento e a mudança por meio da magia como ferramenta para aprofundar a condição humana.


Blue Rose se passa em Aldea, focando principalmente no Reino de Aldis. Este reino, uma monarquia, difere ao escolher seu governante por intervenção divina em vez de herança. A atual monarca, Rainha Jaellin, ascendeu ao trono quando "o Golden Hart", símbolo de governança legítima, a escolheu entre concorrentes rivais.

As tensas relações com Jarzon, um reino vizinho de fanáticos religiosos, são uma constante. Ambas as nações enfrentam ameaças de Kern, um reino maligno de necromantes, levando a alianças instáveis contra o agressor comum.

O jogo apresenta Aldis como uma sociedade inclusiva sem impor juízos morais. A estética excepcional do livro, com ilustrações que retratam emoções e aspirações, reflete o cuidado do diretor de arte, Hal Mangold. O mundo de Aldea é rico em detalhes, proporcionando uma mistura de renascimento europeu, intriga política e a ameaça da Sombra, entidade maligna que foi combatida a eras atrás e que constantemente faz cair heróis diante de sua corrupção.

O sistema do Blue Rose destaca-se pela simplicidade e facilidade em construir personagens e resolver conflitos. Emprega três dados de seis faces, comuns e fáceis de encontrar, sendo um deles de cor diferente, chamado de Dado de Drama, que permite ações heroicas sob determinadas condições.

Para realizar os testes, basta rolar os três dados, somar a uma habilidade ou atributo e vencer a dificuldade estabelecida. Quanto maior o resultado, melhores são os efeitos, além do Dado de Drama introduzir um fator adicional a esses resultados.

 O foco em combate é equilibrado com elementos que incentivam momentos sociais e exploratórios. Além disso há o sistema de Façanhas, que permite efeitos adicionais de acordo com o resultado geral e com o citado Dado de Drama.

As classes, divididas em adeptos, guerreiros e especialistas, oferecem opções de especialização, ampliando a personalização. O sistema mágico é intuitivo, ligando-se aos temas da fantasia romântica, com disciplinas que concedem poderes baseados na afinidade com determinados conceitos, embora eu, pessoalmente, considere esses sistemas confusos em alguns momentos.


A criação de personagens é simples, num sistema de simplificação que lembra muito o que foi feito no Tormenta20 em contar apenas o bônus para cada atributo no lugar de seu valor numérico. Há opções como rolar os dados para decidir os valores, assim como a compra por pontos.

Há cinco raças para serem escolhidas, sendo os humanos divididos pelos reinos e, sem dúvidas, a raça mais inusitada de todas, os rhydanos. Estes são animais inteligentes capazes de fazer magia e interagir com as outras raças, além de possuírem habilidades psíquicas. E não, eles não possuem formas humanoides ou maneiras de se comunicarem pela voz.

Queria apenas destacar duas coisas que, para mim, são as mais interessantes desse jogo: Relações e apoio à comunidade LGBT+.

Relações são os pilares do jogo e parte das regras de Blue Rose. Como elementos de trama, são as relações que determinam os vínculos afetivos e emocionais dos personagens uns com os outros, com suas histórias e com suas motivações. Como elementos de regra, Relações dão pontos em Façanhas para o personagem que vivenciar e cumpri-las durante as aventuras.



O apoio à comunidade LGBT+ ocorre de maneira orgânica e funcional. Em Aldis não há termos para o gênero das pessoas, uma vez que manter um relacionamento homossexual ou heterossexual não faz diferença por conta de as almas não possuírem orientação ou identidade relacionadas ao sexo.

Tanto que na versão original em inglês não existe um termo para transgênero, uma vez que, em Aldis, você nascer em um corpo não é determinante para como você se enxerga ou se identifica. Ao longo do livro, contando a história do jogo, há momentos em que relações não-heterossexuais são apresentadas, inclusive em ilustrações.

Esse aspecto, inclusive, faz com que muita gente da comunidade do RPG torcesse o nariz, com gente inclusive achando que há uma estereotipificação de gays e lésbicas, o que não é verdade, pois ali são apresentados que eles apenas existem e que ninguém os trata de maneira diferente por isso.

Contudo, não espere uma representação queer muito marcante ou aprofundada nesse jogo, tal qual acontece em jogos como Monsterhearts ou Lichcraft. Ela não existe explicitamente e os autores não batem nessa tecla constantemente.

No geral eu acho esse um dos jogos mais fodas que já peguei em mãos. Tenho tanto a versão em inglês quanto a versão em português e acho esse jogo uma das coisas mais bonitas que surgiram na cena. E conta com a tradução de Clarice França, Flavia Ramalho, Gabriela Coiradas, Gilvan Gouvêa e Nino Simas, a edição competente de Thiago Rosa e a revisão: Aline Costa, Carine Ribeiro, Glauco Lessa.


Sobre o Autor:
Fabio Melo

Formado em Letras, especialista em Língua Portuguesa e Literatura, além de alguns cursos aqui e ali sobre língua inglesa. Possuo um site / podcast para falar de música alternativa, faço umas músicas experimentais ruins e sou aficionado por RPG e jogos analógicos (vulgo jogos de tabuleiro).

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